domingo, 22 de janeiro de 2017

O Amigo Da Minha Infância |Parte 1

Olá pessoas.
Antes de começar e como não quero deixar ninguém confuso isto é o início de uma nova rubrica aqui no blog. Eu já tinha esta ideia já há algum tempo, mas não sabia se vocês iriam gostar deste tipo de conteúdo, mas decidi dar uma oportunidade.
Resumidamente, eu adoro escrita criativa e também adoro criar pequenas histórias e ler criações de outras pessoas, admito que até já escrevi fanfics, simplesmente porque estava aborrecida, haha. Por estas razões eu lembrei-me de partilhar pequenas histórias criadas por mim convosco aqui no blog. Como não vejo muito deste tipo de conteúdo em blogs portugueses, tenho um pouco de receio da reação, mas se tiverem tempo livre, peço-vos que leiam esta pequena história e deixem as vossas opiniões nos comentários.
Também vou partilhar a história no Wattpad, o link da minha conta de Wattpad vai estar no fim deste post.
Espero que gostem!
"Por vezes temos que sacrificar a nossa própria felicidade, pela felicidade dos outros"

Observo Jorge enquanto ele termina as suas contas de matemática. Gostava de o poder ajudar, mas eu não frequento as aulas como ele. 
Nem sequer sou uma criança real.
Sou fruto da sua imaginação, a pessoa que ele criou para passar os últimos anos da sua infância até eu ter que o deixar ir. O tempo esgotasse e sei que vou ter que o fazer, esse é o meu único objetivo até desaparecer.
Reparo como ele está concentrado na sua tarefa. Olhos focados, não desviam do exercício, rói as unhas da mão esquerda enquanto pensa numa solução e a mão direita faz uma pequena dança com o lápis. É notável que ele está com dificuldades, mas matemática está completamente fora do meu alcance.

-Se não consegues fazer os exercícios, porque é que é que não pedes ajuda aos teus pais? -sugeri após o ter observado na mesma posição por mais de cinco minutos.
-Tu sabes que eles estão ocupados. -responde sem desviar as atenções do seu livro.
-E a tua professora? 
-Ela ignora-me como todos os outros. 

O Jorge está a ter uma infância complicada. Desde que mudou de casa que tem se transformado lentamente numa criança mais fria e menos acessível. A culpa não é dele.
Ele estava feliz no Barreiro, as outras crianças viam-no como um ser igual, como um deles. Ele poderia ter tido uma infância alegre e normal se as crianças da capital não fossem tão cruéis. Parece que alguém lhes deu de comer algo estragado ou com veneno que os tornou assim após uns anos. 
Talvez tenha sido da educação.
Não sei, não estou aqui para formar teorias, mas o comportamento destas crianças em Lisboa é chocante. 
Lembro-me do dia em que Jorge chegou da escola com nódoas negras por todo o corpo. Disse aos pais que esteve a jogar futebol no intervalo, mas a verdade é que foi esmurrado e pontapeado pelos seus colegas. Porquê? Porque ele é diferente. Porque a cor da sua pele não é clara. Eles odeiam-no por ser diferente. Já tentei entender esta teoria estranha, mas a verdade é que não consigo. Não tenho essa capacidade. Talvez a mentalidade das crianças seja diferente dependendo da sua região? Ou talvez seja a educação que é diferente.
Jorge viu-se sozinho desde o momento em que chegou a Lisboa a meio do segundo período escolar. Desde aí que ele sabia que as coisas não iam ser iguais. Ele tentou, tantas vezes encontrar alguém que o aceitasse, alguém que olhasse para ele e visse um ser humano que ele é. Foi escusado, por alguma razão, os miúdos não compreendiam que o seu novo colega era diferente por fora, mas igual por dentro. 
Felizmente, Jorge é uma criança criativa e imaginativo e criou-me. O seu amigo perfeito. Juntou todas as qualidades que queria e imaginou o seu físico na sua mente. Assim eu fui criado, saído da sua imaginação. Ele deu-me vida e uma oportunidade para ver este planeta, que mesmo que seja desequilibrado, não deixa de ser interessante de observar tudo o que se passa e as pessoas que o habitam.
Estou imensamente grato por tudo isto. Tudo o que sei, tudo o que tenho, é graças a ele. Claro, como tudo, isto tem um lado negativo. Por ser fruto da imaginação de Jorge, ele é o único que me vê e o único com qual eu posso interagir. Às vezes faço perguntas sobre este mundo que ele não sabe responder, mas ele pesquisa na chamada internet as respostas por mim. Outras vezes, ele pede-me conselhos quando não sabe o que fazer, é nessas alturas que eu sinto uma enorme pressão. A partir do momento em que ele me criou, a sua felicidade e o seu sucesso vão depender de mim, dos conselhos e avisos que lhe dou, das decisões que tomo por ele. 
Ele não está preparado, se estivesse, não me teria criado. Ele precisa de mim, se não precisasse, não estaria aqui, já teria desvanecido deste mundo. 
Eu não quero desaparecer, tenho medo de o deixar sozinho, receio do que lhe possa acontecer e depois não ter ninguém para o acudir. A partir do momento em que ele me esquece, é o momento em que não precisa de mim e eu desapareço, sem hipótese de voltar.
Não sei de nada antes de ter sido criado por Jorge, mas as regras e as suas consequências vieram já implementadas no meu cérebro, daí eu ter o seu conhecimento.

-Tenho fome. Vamos lanchar? - desta vez Jorge olha para mim.
-Sim, vamos comer! -respondo o mais animadamente possível. 

São este tipo de energias que lhe quero passar. Animadas, divertidas, descontraídas. Tudo o que lhe quero passar para ele nunca se sentir desconfortável comigo. Sempre resultaram e sei que ele vai aos poucos absorvê-las e mostrando-o na sua personalidade.
 Ambos nos levantamos e fazemos uma corrida até à cozinha. Imediatamente ele salta para uma cadeira para chegar aos armário do topo, onde todas as coisas boas estão. Abre o armário e começa a investigar os alimentos disponíveis.

-O que é que queres comer? -questiona
-Posso comer o mesmo que tu.

Não que eu realmente precise de comer, mas ele imagina comida para mim e eu faço-lhe companhia. 
Ele não uma criança alucinada, ele tem a perfeita noção que não sou real, ele sabe que, mesmo que seja aos olhos dele, sou um amigo demasiado perfeito para sequer ser real.
Um pacote de bolachas e um copo com leite foi-me apresentado quando me sentei ao seu lado na mesa.

-Queres falar sobre o teu dia na escola? -perguntei após alguns segundos de silêncio.
-Nada de especial. Aqueles rapazes da minha turma continuam a meter-se comigo e eu continuo a não ser corajoso para lhes responder. Talvez nem valha a pena. -explicou com um notável tom triste na sua voz.

É nestes momentos que eu tenho duas opções.
Dizer-lhe para aguentar e que vai ficar tudo bem ou encorajá-lo a enfrentar estas crianças.
A minha felicidade ou a dele.

-Tenho estes idiotas a fazer da minha vida um inferno e o resto da escola ignora-me. Já nem sei qual das duas prefiro. -comenta.

Ficar com ele para sempre ou desaparecer.

-Porque é que não posso simplesmente ser aceite por eles? Porque é que eles não conseguem ver que sou igual a eles? -foi aqui que notei o seu tom angustiado.
Não o crítico, percebo perfeitamente a sua situações. É angustiante, é intolerável, completamente ridículo.
Por isso mesmo é que vou tomar medidas.

-Talvez o problema seja mesmo meu. Nasci diferente, sou tratado de maneira diferente. Acho que os começo a entender.
-Isso não é verdade. -sussurrei.
Ele olha para mim, o seu rosto encontra-se totalmente neutro. Não posso deixar que ele aceite isto como sendo algo natural, não posso deixar que ele viva dessa maneira.

-Tu não és o problema, o facto de tu seres diferente por fora não de tira nem dá nada à pessoas que tu és. Tu és uma pessoa que merece tudo, tudo mas não isto. Não mereces ser discriminado pela tua cor e não vou deixar que penses pouco de ti próprio. Tu devias sentir orgulho e confiança em ti e em todas as tuas caraterísticas. -vi o seu rosto acender com esperança. O brilho nos seus olhos voltou por uns minutos.- É nisso mesmo que vamos trabalhar. Este fim de semana vou fazer tudo para te preparar para te defenderes dessas crianças. Depois, vamos trabalhar na tua auto confiança.
-No que é que estás a falar?
-Segunda-feira vou contigo para a escola e vou ajudar-te. -admito, por esta altura a raiva e determinação estão a tomar conta de mim.
-Não te quero ofender Filipe, mas não há muito que possas fazer.
-Vou para não estares sozinho. Apoio moral. Incentivar-te.
-Apoio moral... -não é a primeira vez que o deixo confuso com os meus discursos. Tenho que me controlar com o vocabulário.


Esta é a primeira parte desta pequena história que estou a construir. Tentarei ser o mais breve possível para escrever a segunda parte.
Por favor, eu adoraria que deixassem as vossas opiniões,  críticas, questões e sugestões nos comentários. Isto é mesmo muito importante para mim, pois escrever ficção é a minha paixão e nunca tinha partilhado nada assim no blog ou em qualquer outro site.
Se estiverem interessados, vou deixar o link para a minha conta de Wattpad AQUI.
Espero que tenham gostado e desde já obrigada por terem tirado um pouco do vosso tempo para lerem esta história.
Até à próxima!

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