terça-feira, 14 de abril de 2015

Underwater

Era um daqueles dias de Inverno em que eu tinha acabado de chegar da escola. A minha mãe saíu da casa de banho com um sorriso e perguntou-me o que eu achava da ideia de tomar um banho bem quente. Achei boa ideia, o frio da rua tinha tornado o meu corpo num cubo de gelo humano e o meu nariz não parava de pingar. Não demorou muito até mergulhar na água quente e deixar um suspiro de alívio correr pela minha garganta fora.
Comecei então a pensar no meu dia. As aulas tinham sido uma seca e o número de trabalhos de casa de geografia A para a próxima semana eram absurdos. Do lado de lá da porta fechada da casa de banho oiço os gritos dos meus pais. Mais uma discussão sobre algo completamente ordinário.  Mergulhei a cabeça na água junto com as preocupações na tentativa abafar as suas vozes. Deixei que os meus músculos relaxassem por alguns segundos.  As vozes deles soavam como marteladas nas paredes da banheira. Deixei o ar que armazenei dos meus pulmões saísse e várias bolhinhas se formaram até explodirem ao chegarem à superfície da água. Pensei em várias coisas ao mesmo tempo.
Nas amizades que perdi com o começo do secundário, no quão as pessoas que pareciam novos amigos se tornaram em autênticos emplastros na minha vida, no quão me incomoda o facto de parecer que aquele rapaz da turma parecer odiar-me, e, pelo contrário outro rapaz, um total cromo, gostar talvez demasiado de mim, em toda a matéria que ainda que vou ter que rever, na relação entre os meus pais e na tensão que se sente nesta casa.
A esta altura as vozes dos meus país já não eram ouvidas por mim. Sinto o meu coração a bater demasiado rápido e uma certa pressão nos meus pulmões. Não vou mentir que, durante apenas alguns segundos, pensei em permanecer ali. Caminhar pela rua mais plana e deixar todas as responsabilidades para trás, não ter que me preocupar com a possibilidade de magoar alguém com as minhas palavras, não ter que pensar na minha longa lista de coisas a fazer, nem ter que decorar todos os conceitos de Filosofia. Por momentos fui egoísta, pensei no que era bom para mim e não bom para os outros. Por momentos pensei em quão fantástico seria não ter que lidar com as pessoas revoltadas e vulgares que governam este mundo.

Mas isto não passaram de meros segundos. Não demorou muito para voltar à superfície e respirar o ar húmido e quente que me rodeava. Voltar à realidade, por vezes, dura realidade. À minha dura realidade.

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